
Lançado em março de 2025, o novo modelo de crédito consignado privado, também conhecido como Crédito do Trabalhador, já movimentou R$ 10 bilhões na economia brasileira. Com a promessa de oferecer taxas mais acessíveis para trabalhadores com carteira assinada, essa nova modalidade planeja utilizar 10% do saldo do FGTS como garantia, além de 100% da multa rescisória em caso de demissão sem justa causa.
Para os bancos e fintechs, trata-se de uma oportunidade única de ampliar a base de clientes e escalar a rentabilidade com um produto de menor risco e alto volume potencial. Já para os trabalhadores, é uma alternativa para trocar dívidas mais caras, como as do cartão de crédito, por uma linha com juros médios ao redor de 2,5% ao mês.
Segundo dados do governo federal, a demanda cresceu 7,4% de março para abril, primeiro mês completo após o lançamento. A estimativa oficial é de que o produto possa movimentar mais de R$ 100 bilhões nos próximos meses. Mas apesar do entusiasmo inicial, o consignado privado ainda enfrenta entraves significativos.
O primeiro obstáculo é o risco de inadimplência, agravado pela menor estabilidade dos trabalhadores CLT em comparação a servidores públicos. Estima-se que a inadimplência do crédito pessoal entre CLTs esteja em torno de 8%, frente aos 6% de outros perfis.
Além disso, fintechs enfrentam barreiras tecnológicas, como a complexa integração ao eSocial e limitações para acessar dados de empresas de pequeno porte. As altas taxas de juros praticadas por algumas delas – entre 3% e 6% ao mês – refletem esse risco.
Outro ponto crítico é o desconhecimento do público. Sem educação financeira, há maior risco de superendividamento, especialmente entre quem já possui dívidas ativas ou consome crédito sem planejamento.
Para superar esses desafios, fintechs podem sair na frente ao contar com parceiros que já ofereçam a infraestrutura necessária, desde motores de crédito e sistema de antifraude até validação de identidade e estruturação de FIDCs, que viabilizam a compra dos créditos gerados. Em vez de construir tudo do zero, essa estratégia permite lançar o produto com mais rapidez, segurança e escalabilidade.
A portabilidade, iniciada em maio, é uma das grandes apostas para ampliar o alcance dessa modalidade. Com ela, será possível migrar dívidas caras para o consignado privado, aumentando a concorrência e reduzindo o custo efetivo para o trabalhador. A expectativa é que o mercado possa atingir até R$ 120 bilhões em volume até 2029, impactando cerca de 19 milhões de trabalhadores CLT.
Mas para que isso se concretize, é essencial a consolidação das garantias via FGTS, previstas para julho, além da criação de ferramentas digitais de educação financeira e melhorias na interoperabilidade para que os bancos ofereçam esse produto diretamente em seus canais.
Mesmo ainda em fase inicial, o saldo do consignado privado já é positivo: bilhões de reais injetados na economia, juros mais baixos e novas possibilidades para milhões de brasileiros. Mas a consolidação desse mercado exigirá tempo, ajustes regulatórios e evolução tecnológica.
As fintechs têm um papel central nessa construção: promover o uso responsável do crédito, proteger o trabalhador do superendividamento e contribuir com soluções escaláveis e inclusivas.
Com as ferramentas certas, o consignado privado pode se tornar uma das principais portas de entrada para a educação financeira e o acesso ao crédito sustentável no país. E mais do que isso: pode inaugurar um novo capítulo de competitividade e modernização no setor financeiro brasileiro.
Danilo Porto, sócio da QI Tech.
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Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais