
Recentemente, chamou minha atenção a notícia de que um banco italiano planeja demitir cerca de 9 mil profissionais seniores até 2027, substituindo-os por 3,5 mil profissionais juniores que irão atuar lado a lado com soluções de Inteligência Artificial (IA) – e até mesmo ser monitorados por elas – para executar as mesmas funções. Fui investigar outras fontes e encontrei uma tendência oposta: há mercados onde os profissionais seniores são cada vez mais valorizados, principalmente porque, ao utilizarem ferramentas de IA (como Copilot, ChatGPT, entre outras), conseguem entregar com eficiência funções antes reservadas a juniores.
Temos, portanto, estratégias distintas, mas um ponto em comum: a Inteligência Artificial.
Há alguns anos, quando estive envolvido em um projeto sobre automação e IA, comecei a usar um conceito que ouvi na época para descrever profissionais que utilizam essas ferramentas para ampliar seu desempenho e conhecimento: “profissionais híbridos” ou, como gosto de chamar, “Centauros Digitais”.
A analogia do centauro é interessante. Antes da invenção do estribo, era quase impossível unir velocidade, força e inteligência de maneira coordenada – o estribo permitiu que cavaleiros manejassem armas eficientemente, fundindo potência e destreza. O centauro, na mitologia, representa justamente essa fusão: a força do cavalo com a racionalidade humana.
Lembro de um vídeo da Professora Lúcia Helena Galvão, em que ela explica que, na mitologia, híbridos de homens e animais são comuns, mas há um detalhe: quando a parte animal está da cintura para cima, temos criaturas descontroladas como o Minotauro ou a Medusa. Quando é da cintura para baixo – caso dos centauros e das sereias –, surgem seres encantadores, com habilidades superiores às humanas.
Isso me faz refletir: qual deve ser nossa estratégia diante da IA no cotidiano?
Se optarmos por times compostos majoritariamente por juniores operando ferramentas de IA, como garantir o bom ajuste e a governança dessas tecnologias? Como promover crescimento profissional nesse modelo? Será que, realizando tarefas automatizadas, esses jovens manterão o engajamento, o pensamento crítico e a capacidade de contribuir ativamente? Estará a IA no controle? Corremos o risco de perder esse controle? E quando esses profissionais estiverem prontos para avançar, haverá espaço para eles na organização?
Recentemente, uma profissional do setor jurídico compartilhou comigo sua experiência usando IA: já identificou erros em algumas ferramentas, como IA “inventando” jurisprudências ou dispositivos legais. Os tribunais, inclusive, já estão atentos a essas distorções.
Por outro lado, se decidirmos que a IA deve assumir o operacional, como prepararemos nossos juniores para se tornarem verdadeiros Centauros Digitais, atuando com autonomia e pensamento crítico junto às máquinas? Qual o papel da educação nesse processo? Devem as universidades formar profissionais já habilitados para essa nova realidade, ou caberá às empresas investirem mais em educação corporativa, preparando talentos para desafios específicos?
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As novas gerações são, sem dúvida, muito mais digitais e têm acesso a uma abundância de conteúdo. Mas, se o “conhecimento digital” se tornar commodity, quais diferenciais passaremos a buscar? Talvez seja hora de valorizar a formação de pessoas com saberes amplos e habilidades múltiplas – os polímatas. Lembro de uma conversa com a psicopedagoga da minha filha, quando comentei sobre o excesso de conteúdo disponível. Ela respondeu: “Pai, hoje conteúdo não é o problema. Qualquer criança acessa o YouTube e aprende o que quiser. A preocupação será com a socialização e o desenvolvimento das soft skills.”
Não defendo nenhuma das abordagens como resposta definitiva. Acredito que seguiremos testando caminhos, incorporando soluções cada vez mais inteligentes aos nossos produtos, automatizando o possível e eliminando tarefas que não agregam valor humano.
A professora Lúcia Helena Galvão diz, em outra palestra: “Se o robô está roubando o seu trabalho, é porque talvez você estivesse roubando o trabalho dele.” Uma provocação direta sobre a mecanização de muitos trabalhos.
Para quem quiser se aprofundar, recomendo o livro “A Próxima Onda”, de Mustafa Suleyman.
Seguiremos, como profissionais, buscando conhecimento, novas ferramentas, inovação e, principalmente, trabalhando em equipe. Afinal, o futuro tem por vocação ser incerto.
Marcelo Isolani, Diretor de Desenvolvimento e Delivery na Open Labs AS.
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Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais