
A disputa global de hoje não é mais só por território, poder militar ou influência política. A corrida agora é por conhecimento e domínio tecnológico. Mais especificamente, por tecnologias tão avançadas que podem mudar as regras do jogo. Nesse sentido, as deep techs, que nascem da ciência de ponta, em áreas como biotecnologia, inteligência artificial, novos materiais e energia limpa, já estão moldando a economia, a segurança e até as alianças entre países.
E o Brasil? Está ganhando espaço e mostrando sua força nesse cenário. Com ecossistemas de inovação em crescimento, modelos de investimento cada vez mais diversificados e iniciativas que conectam ciência e mercado, o país vem buscando se posicionar como um ator relevante na corrida das deep techs.
Apesar dos desafios, já vemos movimentos concretos que indicam um caminho promissor para que o Brasil atue com protagonismo nessa transformação global. Temos tudo para ocupar esse lugar: uma biodiversidade única no mundo, centros de pesquisa de excelência e, o principal, pessoas criativas tentando resolver problemas reais com base científica. Mas ainda vejo de perto soluções incríveis sendo geradas para virarem impacto, mas que acabam engavetadas ou desacreditadas por falta de suporte adequado e investimento.
Outros países estão fazendo a lição de casa. Por exemplo, os Estados Unidos possuem o “National Artificial Intelligence Initiative Act”, que direciona investimentos estratégicos para IA e outras deep techs, garantindo coordenação entre agências federais e setores privados. A China lançou o “Plano de Desenvolvimento da Nova Geração de Inteligência Artificial”, com metas claras e aportes financeiros robustos que visam a liderança global em deep tech até 2030. Na Europa, a União Europeia consolidou o programa “Horizon Europe”, com foco em pesquisa e inovação, incluindo tecnologias profundas.
Não digo que é simples. Mas também não dá para continuar fragmentando a ciência, a inovação e o impacto como se fossem trilhas separadas. O mundo já entendeu que essas frentes estão profundamente conectadas. E quem dominar as tecnologias e inovações terá muito mais do que vantagem econômica: irá influenciar padrões de produção, regular mercados e, em alguns casos, ditar as prioridades globais.
Nós ainda olhamos muito para a inovação com foco em velocidade e escala. Mas deep tech não é sobre isso. É sobre resolver o que é estrutural. E isso exige paciência, visão e articulação entre mundos que nem sempre se entendem: universidade, empresa, governo e investidor.
Eu convivo diariamente com essa travessia. E, mesmo diante dos desafios, vejo motivos para otimismo. Por aqui, iniciativas como o Plano de Neoindustrialização sinalizam avanços importantes. Ao integrar ciência, tecnologia e produção nacional em torno de missões como transição energética, bioeconomia e saúde, o plano reconhece o papel das deep techs como motor da nova indústria brasileira. A atuação de instituições como Finep e Sebrae, e até a crescente participação de filantropia na ciência estão criando um ambiente mais favorável para que as deep techs brasileiras prosperem. Além disso, iniciativas de comunicação pioneiras, como o podcast da Wylinka, ajudam a conectar toda a cadeia de inovação e a dar visibilidade a esse ecossistema em expansão. O caminho ainda é longo, mas o Brasil já está construindo pontes sólidas para virar o jogo.
Se queremos ocupar um lugar estratégico na nova economia global, precisamos agir como tal. O Brasil pode ser mais do que um fornecedor de commodities ou de dados. Pode ser criador de soluções que o mundo ainda nem imaginou. Mas para isso, precisa escolher: entrar ou não entrar nessa corrida?
Ana Calçado, CEO e presidente da Wylinka.
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Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais