
Eu não encontrei nenhuma pesquisa a respeito, mas na minha experiência e observação, estimo que pelo menos 80% de toda a massa de trabalhadores de nosso setor atua em funções básicas. Cargos como atendente de helpdesk “N1”, suporte de campo, alguns tipos de programadores mais simples etc. São trabalhos maçantes, repetitivos, mal remunerados. E o pior de tudo: pouca gente se importa em dar um futuro para essas pessoas. Elas vagam entre empregos, não costumam ficar mais de um ano em cada um, pois buscam salários melhores ou oportunidades de crescimento. Mas de fato ficam apenas perambulando, sem crescimento de fato para a vasta maioria. É assim no Brasil e no mundo.
São os párias de nosso setor. Para essas pessoas, é muito difícil conseguir avançar na carreira uma vez que, além de não terem em geral um conhecimento específico muito profundo, o próprio mercado também se apropriou dessas carreiras, dificultando sistemicamente uma jornada de sucesso.
A ascenção da GenAI é mais uma ameaça para elas. À medida que automatizamos muito o atendimento e o desenvolvimento de sistemas de software, estes trabalhadores vão perder seu espaço. E não criamos caminhos naturais para que eles ascendam.
Se nada for feito, vamos trocar o discurso de falta de mão de obra para discutir desemprego em nosso setor, já que a demanda por funções mais sofisticadas (e mais bem pagas) existe e só cresce.
Este cenário é muito triste para mim. Minha jornada profissional foi dura, como foi para todos da minha geração que chegaram ao mercado de trabalho no final da década de 1980, mas ela era possível. Com muito esforço, a gente conseguia avançar. Porém, as portas foram se fechando.
A solução é sempre a mesma: educação. Precisamos dar instrução para esta talentosa massa não se tornarem desempregados funcionais, ao mesmo tempo em que tanto necessitamos de novos perfis de trabalhador em dados e AI, por exemplo.
Felizmente, nossa sociedade se desenvolveu e cresceu a percepção de responsabilidade que cada um de nós tem sobre o todo: já sabemos que não devemos esperar apenas os órgãos do governo resolverem; nós temos de agir.
Assumi, neste mês de junho, oficialmente, a função de Conselheiro da Escola da Nuvem. Acredito que iniciativas como da EdN são as que mais precisamos neste momento para seguir adiante. Esta massa de centenas de milhares de trabalhadores merece nosso apoio – e precisamos deles!
Como conselheiro da EdN, vou levantar esta bandeira – já muito clara para a Escola, mas ainda com muito espaço a conquistar no mercado. Conto com você em nos apoiar. Há um estoque de talentos enorme no Brasil, vamos dar a chance que eles merecem!
Tenho dito que IA nos obriga a arrumar coisas que deixamos de lado, como segurança, dados e envolvimento com o negócio, pois a mais importante coisa que deixamos de lado foi não abraçar os entrantes do nosso setor e garantir uma força de trabalho robusta. Vamos resolver isso e fazer tudo ter sentido.
E não será surpresa quando, em alguns anos, a inovação em tecnologia começar a vir cada vez com mais força ainda do Brasil e países da América Latina.
Mauricio Fernandes, CEO da Dedalus.
Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais