
As transformações em curso no setor elétrico brasileiro ganharão protagonismo na 17ª edição do Fórum Latino-Americano de Smart Grid, que será realizada nos dias 4 e 5 de agosto, em São Paulo. O evento reunirá presidentes de empresas, especialistas do setor público e privado, reguladores e provedores de tecnologia para discutir os novos rumos da energia no país e na América Latina.
A pauta deste ano é extensa diz Cyro Boccuzzi, CEO da ECOee e organizador do evento. “Entre os principais temas estão a antecipação da renovação das concessões de distribuição, os novos modelos de remuneração que devem emergir com as mudanças no papel das distribuidoras e a necessidade de aumentar a resiliência das redes diante de eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e intensos”
Um dos pontos centrais da discussáo será a obrigatoriedade de digitalização das redes elétricas brasileiras até 2035, conforme prevê a Portaria MME 111/25. Isso inclui a instalação de medidores inteligentes, a adoção de sistemas avançados de gerenciamento de distribuição (ADMS) e a criação de uma infraestrutura digital robusta para suportar uma rede elétrica mais dinâmica e descentralizada.
“Estamos entrando em uma nova era. A digitalização, combinada com o uso de inteligência artificial, permitirá operar as redes com mais eficiência, identificar padrões de consumo, antecipar falhas e oferecer novos serviços ao consumidor”, afirma Boccuzzi. “Essa transformação vai além da tecnologia: é uma mudança de modelo de negócio e de cultura regulatória.”
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A IA, segundo o consultor, está começando a ser utilizada tanto para a automação administrativa quanto para operações em tempo real, como o monitoramento de transformadores e o gerenciamento proativo de redes. “A partir dos dados gerados pelos novos medidores, será possível até mesmo personalizar ofertas de energia, como no futuro vender o serviço de refrigeração ao invés de quilowatt-hora”, exemplifica.
Ele também alerta para os cuidados necessários na adoção da tecnologia: “Em aplicações críticas como o setor elétrico, é preciso evitar os riscos das chamadas alucinações da IA, que podem levar a decisões erradas. É necessário controle, validação e responsabilidade”, enfatiza.
Usinas reversíveis
Outro destaque do fórum será o debate sobre as Usinas de Armazenamento Bombeado (UABs), também conhecidas como hidrelétricas reversíveis. Trata-se de uma tecnologia dominada e já viável economicamente, que pode ajudar o sistema elétrico a lidar com a intermitência das fontes renováveis, como a solar e a eólica.
Essas usinas funcionam como baterias gigantes: utilizam energia excedente em horários de baixa demanda para bombear água de um reservatório inferior para um superior, gerando eletricidade nos momentos de pico. “Elas oferecem um serviço essencial de flexibilidade sistêmica, não de geração contínua. São capazes de estabilizar a rede em segundos, algo vital num cenário com cada vez mais fontes intermitentes”, explica Boccuzzi.
Projetos de UABs já estão sendo estudados no Brasil com foco em uso eficiente da água, implantação rápida e baixo impacto ambiental. “São reservatórios do tamanho de pesqueiros, não grandes represas. E ainda conseguem competir com térmicas e até com baterias em certos contextos”, completa.
Abertura do mercado e desafios tarifários
A partir de 2026, consumidores de baixa tensão poderão entrar no mercado livre de energia, o que aumentará a concorrência e exigirá novos serviços das distribuidoras. “Com a digitalização, uma distribuidora deixará de vender energia para operar a rede e prover serviços ao consumidor. É uma mudança radical”, diz Boccuzzi.
Nesse novo ambiente competitivo, empresas de telecomunicações e bancos — que já têm relacionamento direto com milhões de clientes — poderão, por exemplo, entrar no mercado oferecendo pacotes de energia, como já ocorre com outros tipos de serviços, como seguros e serviços financeiros.
Porém, o desafio será conciliar essa transição com a sustentabilidade econômica das tarifas. “Hoje as tarifas já estão pressionadas. O setor precisa de políticas públicas de longo prazo, espaço para investimentos e uma reorganização da cadeia de custos. Não adianta digitalizar sem viabilidade financeira”, alerta.
Resiliência climática
Os eventos extremos, como os recentes no Rio Grande do Sul e em São Paulo, também entram na pauta. Segundo Boccuzzi, muitas das redes de distribuição e transmissão não foram projetadas para suportar as temperaturas e os esforços mecânicos atuais. “Transformadores que antes operavam a 25°C agora enfrentam picos de 50°C, reduzindo sua vida útil.”
A aplicação de gêmeos digitais — réplicas virtuais de ativos da rede — e sensores de campo pode evitar falhas catastróficas. “Já temos sistemas capazes de detectar, por exemplo, um galho encostando na fiação, antes de gerar um curto ou um apagão”, diz.
Com a antecipação das concessões, 19 das 31 maiores distribuidoras já têm horizonte para investir em digitalização. Estima-se que até 2028 sejam necessários mais de R$ 350 bilhões em investimentos no setor.
“Vamos precisar instalar 90 milhões de medidores inteligentes. É um desafio de engenharia, logística e regulação. Mas também uma oportunidade única de transformar a matriz elétrica brasileira”, resume Boccuzzi.
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Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais