
Quantas vezes você já precisou enviar uma selfie com o documento em mãos, preencher os mesmos formulários em diferentes plataformas ou aguardar dias por uma simples verificação de identidade? Esses entraves ainda fazem parte da rotina de milhões de pessoas nos processos de KYC (Know Your Customer), uma etapa essencial para garantir a segurança e a conformidade regulatória em serviços financeiros e digitais.
Apesar de sua importância, o KYC tradicional é marcado por experiência com fricção junto aos clientes, burocracia, duplicidade de dados e vulnerabilidade a fraudes. Mas esse cenário está prestes a mudar com a convergência de duas tecnologias que vêm redefinindo o conceito de identidade digital: a inteligência artificial (IA) e o blockchain.
Imagine um ecossistema em que dados pessoais, como endereço, número de telefone, documentos e comprovações de renda, possam ser armazenados de forma segura em uma carteira digital e compartilhados instantaneamente com instituições autorizadas. Esse conceito já está em desenvolvimento por meio dos chamados hubs de credenciais reutilizáveis associado a wallets de documentos digitais, que permitem ao usuário controlar suas informações e compartilhá-las com um simples clique, sempre com consentimento explícito.
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Nesse novo modelo, o blockchain atua como infraestrutura para garantir a segurança, integridade e interoperabilidade dos dados. Por ser uma tecnologia descentralizada (DLT), permite o rastreamento de cada transação ou verificação, eliminando a necessidade de intermediários e criando um ambiente confiável entre diferentes instituições, sejam bancos, fintechs, seguradoras ou e-commerces.
Já a inteligência artificial amplia a eficácia desse processo ao automatizar a verificação de identidade. Algoritmos avançados são capazes de analisar documentos, imagens e dados com alto grau de precisão, identificar inconsistências em tempo real e até mesmo detectar comportamentos suspeitos, como tentativas de fraude com perfis falsos ou roubados. Trata-se de uma abordagem proativa, que reduz erros humanos, acelera a jornada do cliente e fortalece os mecanismos de proteção.
A adoção dessas tecnologias já é realidade para muitas instituições. Em um estudo da PwC Índia, 90% dos bancos, seguradoras e fintechs apontaram IA e GenAI como os principais vetores de inovação, já 84% dizem que a experiência do cliente, incluindo o onboarding, está no centro dessas iniciativas.
O mercado está em plena expansão, de acordo com um relatório da consultoria IMARC Group, o setor global de soluções de identidade digital foi estimado em US$ 43,76 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 214,2 bilhões até 2033, com uma taxa de crescimento anual composta de 17,7%. Esse avanço é impulsionado por fatores como o aumento dos ataques cibernéticos, a crescente exigência por autenticação segura, como biometria e autenticação multifatorial, além da demanda por modelos descentralizados e interoperáveis de gestão de identidade.
Nos Estados Unidos, em 2024, os prejuízos causados por ciberataques ultrapassaram US$ 16 bilhões, representando um aumento de 33% em relação ao ano anterior. A maior parte desses danos foi atribuída a golpes simples, como phishing e roubo de identidade, segundo investigação conduzida pelo Federal Bureau of Investigation (FBI), o que reforça a urgência por soluções mais confiáveis e eficientes.
Quando olhamos para o Brasil, temos cerca de 572mil tentativas de fraude no primeiro trimestre de 2025, segundo dados da ClearSale, empresa parte da Serasa Experian e referência em prevenção à fraude. Em valores, as ocorrências mantiveram-se próximas ao mesmo período de 2024, totalizando R$737 milhões em tentativas de fraude.
A combinação entre IA e blockchain representa, portanto, um novo paradigma para o KYC, bem como todos os demais processos de cadastro, compras e solicitação de produtos no ambiente digital: menos burocrático, mais seguro e centrado no cidadão. Ao eliminar redundâncias, garantir o consentimento do usuário e facilitar o acesso a serviços, essas tecnologias não apenas aumentam a eficiência operacional das empresas, mas também promovem inclusão digital e financeira em escala.
Insistir em modelos com alta fricção, fragmentados e repetitivos, em um mundo cada vez mais digitalizado, podemos classificar não apenas como ineficiente, mas também insustentável. O futuro da identificação está na criação de um ambiente digital no qual confiança, privacidade e usabilidade caminham lado a lado, exatamente isso que IA e blockchain estão tornando possível.
Marcelo Queiroz, Head de Estratégia e Novos Negócios da ClearSale (empresa parte da Serasa Experian).
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Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais