
A tokenização de ativos desponta como uma das aplicações mais promissoras da tecnologia blockchain no setor financeiro, e o Brasil tem se consolidado como um dos mercados mais avançados nesse movimento. Ao transformar ativos físicos, como automóveis, imóveis, recebíveis, participações societárias e créditos ambientais em representações digitais programáveis, a tokenização inaugura uma nova infraestrutura econômica: mais eficiente, transparente e integrada.
Diferentemente da simples digitalização, a tokenização cria instrumentos nativos digitais com liquidez, rastreabilidade em tempo real e execução automatizada via contratos inteligentes (smart contracts). A fragmentação de ativos permite negociações com menos ou até mesmo sem intermediários, reduz custos operacionais e amplia o acesso aos produtos financeiros. E isso representa uma oportunidade de reestruturar processos com maior eficiência transacional e mitigação de riscos sistêmicos.
No contexto brasileiro, a maturidade regulatória é um diferencial competitivo. O sandbox da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), bem como o avanço do Drex – a moeda digital brasileira -, criam as bases para a adoção em larga escala de ativos tokenizados. Essa arquitetura regulatória posiciona o país para liderar a migração de mercados analógicos para plataformas financeiras digitais e descentralizadas.
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De acordo com relatório publicado pela Binance Research em junho deste ano, o mercado global de ativos reais tokenizados alcançou valor de mercado de US$23 bilhões, registrando um crescimento superior a 260% somente no primeiro semestre de 2025. No Brasil, esse avanço já se traduz em aplicações concretas, como debêntures digitais, securitização de recebíveis e estruturas de governança. O ecossistema local vem evoluindo para oferecer soluções completas, com foco em confiabilidade, transparência e integração tecnológica com o mercado financeiro tradicional.
A tokenização tem se mostrado especialmente promissora em setores que lidam com ativos de baixa liquidez, alto grau de fragmentação ou grande volume de documentos. No agronegócio, contratos de fornecimento e recebíveis podem ser estruturados como tokens com liquidação automatizada, ampliando o acesso a crédito rural e reduzindo custos cartoriais. O mesmo se aplica ao mercado imobiliário, em que o fracionamento de ativos permite a entrada de investidores de menor porte, enquanto o registro em blockchain melhora a rastreabilidade das transações. Outros setores com potencial são os de veículos, infraestrutura e energia, que tradicionalmente operam com projetos de financiamento de longo prazo. A tokenização permite antecipar fluxos de caixa por meio de instrumentos digitais, facilitando a entrada de capital privado em obras públicas, energia renovável e concessões.
Apesar dos avanços tecnológicos e regulatórios, o Brasil enfrenta desafios culturais e regionais na adoção ampla da tokenização. A ainda baixa educação financeira e digital da população limita a compreensão sobre ativos digitais e seu uso seguro. Desconfiança em sistemas automatizados e desigualdade de acesso à infraestrutura digital, como conectividade e dispositivos, ainda dificultam o uso pleno dessas soluções fora dos grandes centros. Superar essas barreiras exigirá esforços coordenados em educação, inclusão e adaptação de interfaces, para que o potencial da tokenização seja acessível em escala nacional.
A tokenização é mais que uma inovação, é o alicerce de uma nova arquitetura para o mercado financeiro. Com ambiente regulatório ativo e crescente maturidade tecnológica, o Brasil tem potencial para se tornar a primeira grande economia com infraestrutura de capitais amplamente digital.
Jimmy Lui, superintendente de Estratégia e Inovação no banco BV.
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Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais