
A edição 2025 do VivaTech, realizada em Paris, reafirmou por que o evento se tornou o principal termômetro da tecnologia mundial. Este ano, a inteligência artificial — como esperado — dominou os palcos e as conversas de corredor. Mas, mais do que a universalidade da IA, o que chamou a atenção foi a intensidade: a corrida pela “IA perfeita” atingiu um nível quase insano, impulsionada por promessas de eficiência extrema, controle estratégico e novos modelos de negócio. A atmosfera era de urgência. A sensação: ou você está dentro ou está fora do jogo.
Os números refletem essa guinada. A Gartner estima que os gastos corporativos com IA generativa devem ultrapassar US$ 640 bilhões já em 2025, com um crescimento de mais de 75% sobre o ano anterior. Só no primeiro trimestre deste ano, as startups de IA captaram US$ 66,6 bilhões em venture capital — quase dois terços do volume global de investimentos em startups no mundo, segundo a CB Insights. A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa e se tornou uma exigência estratégica. Mais do que inovação, passou a ser infraestrutura crítica.
As grandes corporações, mesmo aquelas que entraram mais tarde nessa corrida, têm usado seu poder de capital e distribuição para se reposicionar rapidamente. Vimos empresas tradicionais — de setores como seguros, saúde, varejo e agro — apresentarem soluções robustas, com ganhos de produtividade já comprovados.
Já o ecossistema de startups, embora vibrante e dinâmico, revelou um padrão preocupante: muitos produtos estão sendo desenvolvidos em cima de APIs abertas, com pouco controle sobre os fundamentos técnicos. Trata-se de uma aposta ágil, sim, mas também frágil diante de possíveis mudanças de política, licenciamento ou comportamento das plataformas dominantes. É um castelo que pode ruir com um único ajuste de rota de um big tech.
Outro destaque do evento foram os óculos inteligentes. Eles não são mais apenas gadgets conceituais. Avançaram, e muito. As novas gerações oferecem imagens em altíssima definição, comandos por voz e gesto, traduções em tempo real e assistentes contextuais integrados — tudo com um design que já não compromete o uso diário.
Empresas como Meta, Apple e startups como Xreal mostraram protótipos (e produtos já em pré-venda) que caminham na direção de tornar o smartphone um dispositivo obsoleto. E não se trata de futurologia: a IDC projeta a venda de mais de 9 milhões de unidades de óculos inteligentes só em 2025, e o mercado já movimenta quase US$ 2 bilhões ao ano. Estamos diante da próxima interface dominante, com potencial para mudar não só a forma como acessamos a tecnologia, mas como interagimos com o mundo físico e digital ao mesmo tempo.
O discurso do CEO da Nvidia, Jensen Huang, sobre “IA soberana” também ecoou fortemente no VivaTech. A Europa, em resposta, anunciou investimentos da ordem de 20
bilhões de euros para desenvolver seus próprios chips e fundar quatro mega centros de computação.
A geopolítica da IA não é mais uma abstração: tornou-se um jogo real de soberania econômica e cultural. As nações estão acordando para o fato de que depender de grandes modelos estrangeiros, treinados em contextos e línguas alheias, é abrir mão de controle estratégico e identidade local. Essa discussão, aliás, interessa — e muito — ao Brasil.
Tive o privilégio de participar do evento como parte da delegação brasileira organizada pela ApexBrasil, Sebrae e Consulado Geral do Brasil em Paris. Em um cenário global cada vez mais orientado à sustentabilidade e à transparência, a rastreabilidade precisa deixar de ser um diferencial e passar a ser tratada como passaporte para operar em cadeias globais. O feedback que recebemos no VivaTech foi direto: soluções que combinam dados de campo, inteligência preditiva e interoperabilidade ESG serão cada vez mais valorizadas por grandes compradores e fundos internacionais.
Ao sair do evento, ficou claro que o VivaTech vai além de ser uma vitrine tecnológica. Ele provoca. Confronta. Obriga os líderes a repensar suas estratégias com base no que está acontecendo agora — e não no que foi prometido anos atrás. A Inteligência Artificial não é mais um “tema de painel”. É uma camada essencial das decisões empresariais, da educação, da saúde pública e do comércio internacional. Os óculos inteligentes, por sua vez, são mais do que gadgets futuristas: representam a ruptura mais concreta com o paradigma do smartphone desde que ele se popularizou.
E o Brasil? Está no jogo. Mas precisa correr. A oportunidade existe — com nossos dados climáticos, diversidade produtiva e capacidade criativa. Mas ela exige visão, articulação e vontade política. Porque o futuro que vimos em Paris não vai esperar ninguém. E, ao que tudo indica, ele não vai mais caber no bolso — vai estar sobre o nariz.
Paulo Bitar, co-fundador da QR Cattle.
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Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais