
Nas últimas semanas, um estudo do MIT Media Lab ganhou destaque nas redes sociais, mas não pelo conteúdo original e sim pelas manchetes sensacionalistas que o acompanharam:
“IA está drenando seu cérebro”,
“Usar ChatGPT te deixa mais burro”,
“Uso excessivo do ChatGPT pode prejudicar sua mente”.
“Usuários de ChatGPT têm ‘menor nível de engajamento cerebral”
E tem mais, muito mais. Mas será que foi isso mesmo que a pesquisa concluiu?
Não. Não foi. Inclusive a própria autora do estudo confirmou, em entrevista ao Jornal Times, que as manchetes trouxeram uma visão completamente distorcida sobre o estudo.
O que ocorreu foi o clássico “telefone sem fio”: uma mensagem rica em nuances foi sendo distorcida até se transformar em uma narrativa alarmista e enganosa.
Mas é importante reforçar: a pesquisa apresenta dois tipos de resultados, os positivos e os negativos.
Ela não afirma que o uso de IA prejudica o cérebro. Ela mostra que tudo depende de como usamos a tecnologia.
Quando bem utilizada como apoio à reflexão humana, a IA não apenas melhorou a qualidade das tarefas, como também aumentou a conectividade cerebral em todas as bandas de frequência do EEG.
Isso muda tudo.
É quase o oposto do que as manchetes sugeriram.
A boa notícia?
Quando usada com intenção, critério e propósito, a IA pode se tornar uma poderosa aliada da aprendizagem.
Por outro lado, quando utilizada, no contexto da cultura do menor esforço, do atalho pedagógico, como nos casos em que os participantes apenas copiaram e colaram um prompt no ChatGPT e deixaram a máquina fazer todo o trabalho, os resultados foram na direção das manchetes: os textos gerados apresentaram baixa qualidade, eram homogêneos, repetitivos e rasos. E mais: esse uso passivo da IA resultou na menor conectividade neural entre todos os grupos analisados. Além disso, os participantes que delegaram a escrita à IA demonstraram dificuldade em lembrar trechos do que haviam acabado de “produzir”.
Segundo os autores, uma conectividade neural mais robusta está diretamente relacionada a processos fundamentais como a consolidação da memória e a codificação semântica profunda, ambos essenciais para a construção ativa e significativa do conhecimento.
Mas atenção:
O estudo não diz que o uso intensivo de IA emburrece as pessoas. Essa interpretação não passa de uma distorção alarmista.
O que a pesquisa realmente mostra é que o modo como usamos a IA faz toda a diferença:
– Quando o uso é ativo, reflexivo e criterioso, a IA pode ampliar o desempenho cognitivo e estimular o cérebro de forma mais intensa.
– Mas quando o uso é passivo, automatizado, feito no piloto automático, copiar, colar, entregar, os resultados são significativamente mais fracos: tanto em termos de qualidade das tarefas quanto na conectividade neural e na retenção do aprendizado.
Em outras palavras: quando usamos a IA para terceirizar nosso pensamento, podemos comprometer nossa capacidade de raciocinar, aprender e lembrar. Esse padrão de uso passivo leva ao que os cientistas chamam de dívida cognitiva — um acúmulo de dependência que enfraquece nossa capacidade de pensar criticamente, fazer conexões significativas e tomar decisões com discernimento em contextos complexos.
Ou seja: não é o uso intensivo da IA que emburrece – é a terceirização do pensamento.
A verdade é que a pesquisa reforça algo que a ciência da aprendizagem já sabe há muito tempo: construir conhecimento exige conexão com os conhecimentos prévios, atrito, reflexão, esforço e reelaboração.
Piaget já estudava, há décadas, os diferentes tipos de assimilação, ativa e passiva, e seus impactos no desenvolvimento cognitivo. A Teoria da Aprendizagem Significativa, de Ausubel, reforça a ideia de que aquilo que aprendemos depende diretamente da forma como novas informações se conectam a estruturas mentais pré-existentes. E poderíamos citar muitos outros autores nessa mesma linha de pensamento, como Vygotsky, Bruner e Dewey, todos defensores de uma aprendizagem ativa, situada e com sentido.
O mesmo raciocínio que se aplica ao uso da IA como atalho pedagógico, colando prompts para que a máquina faça o trabalho, vale também para as famosas vídeoaulas. A assimilação passiva da informação tende a gerar processamento superficial.
Isso afeta diretamente a aprendizagem: prejudica a construção de sentido, fragiliza a consolidação da memória, compromete a recuperação futura, dificulta a transferência para contextos de aplicação e impacta negativamente a capacidade cognitiva de forma mais ampla.
Transmitir conteúdos de forma unidirecional pode parecer eficiente, mas a passividade desses métodos cria mais espectadores do que aprendizes.
O problema é que: assistir não é o mesmo que aprender: Para aprender o cérebro precisa estar ativo, processando, questionando e aplicando o que foi visto. Apenas assistir dificilmente leva à retenção ou à aplicação prática. Sem interação, sem retenção: Quando os alunos não são convidados a interagir, resolver problemas ou experimentar, o aprendizado fica superficial e facilmente esquecido.
Por outro lado, sabemos que os conhecimentos de um indivíduo e suas ações mentais, como abstração, generalização e análise, formam uma unidade indivisível. Como afirma Rubinstein, “os conhecimentos não surgem dissociados da atividade cognitiva do sujeito e não existem sem referência a ele”.
Ou seja, o conhecimento é resultado da ação mental.
Tentar trapacear, acelerar ou buscar atalhos cognitivos pode até funcionar para passar numa prova.
Mas a que preço?
A conclusão é clara: os métodos de aprendizagem não são neutros.
Eles moldam o que se aprende, como se aprende e com que profundidade esse aprendizado será integrado à prática.
Enquanto métodos tradicionais, centrados na transmissão e recepção passiva, tendem a gerar reprodução mecânica e pensamento acrítico; abordagens ativas, reflexivas e situadas favorecem autonomia, complexidade cognitiva e transformação real do sujeito e do contexto.
Consumir conteúdo não é o mesmo que aprender.
E o mesmo vale para o uso da IA: quando utilizada apenas para terceirizar o pensamento ou acelerar respostas, ela induz à passividade cognitiva, à superficialidade e ao esquecimento.
O desafio não está na tecnologia.
Está na cultura.
Se não superarmos a cultura do atalho, da pressa, da terceirização do pensamento e da obsessão pelo resultado imediato, vamos seguir aplicando o novo com a lógica do velho e desperdiçando o verdadeiro potencial transformador da inovação.
Daniel Luzzi, fundador e CEO da Cognita Learning Lab e Co-Fundador e Diretor de Aprendizagem da UniCTE. 4
Siga TI Inside no LinkedIn e fique por dentro das principais notícias do mercado.
Fonte: TI INSIDE Online - Leia mais